Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2024
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Cabo Delgado: A outra face do trabalho infantil em Moçambique

by Claudia Guila
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Fonte: Jornal o Dia

Os ataques terroristas, que se verificam na província de Cabo Delgado desde outubro de 2017, são disso um exemplo e têm contribuído para o aumento do número de crianças de rua. Joaquina Nordine, Administradora da Cidade de Pemba, disse num debate na televisão pública moçambicana que algumas crianças são submetidas ao trabalho infantil, com destaque para o comércio informal. Estes fazem parte, segundo ela, de um universo de 67 mil crianças deslocadas das suas casas devido aos ataques terroristas.

E os números não param. De acordo com dados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) cerca de 320 mil crianças foram forçadas a sair das suas zonas de origem, num número equivalente a 40 por cento do total dos deslocados naquela região do país, desde o início dos taques há sensivelmente quatro anos. A agência das Nações Unidas para as crianças (UNICEF), por sua vez, estimou, em abril, que o conflito em Cabo Delgado tenha já feito 350 mil crianças deslocadas, das quais mais de 17 mil devido ao ataque a Palma em março. A organização apelou à proteção desta camada e alertou para a urgência de ajuda humanitária à população de Cabo Delgado, assolada também pela covid-19, cólera e pobreza extrema.

A realidade das ruas! Sábado, 5 de junho, na capital moçambicana. Pastéis de feijão – vulgo badjias –, pão, refrigerantes, amendoim torrado, maçãs, dentre outros produtos, são transportados pelos petizes de ambos os sexos em bacias ou peneiras de um lado para o outro à procura de clientes.

Na Avenida Eduardo Mondlane, em Maputo, dois meninos, com menos de 15 anos, vociferam entre transeuntes indiferentes ou estupefactos na calamitosa paragem. Zangam-se e empurram-se numa disputa sobre a escala de venda dos seus produtos. Há murros e vitupérios, mas a zaragata dificilmente perturba os que ali esperam seus transportes diários. Ou, grosso modo, não lhes interessa.

O cenário é de agressividade, impiedoso que molda mentes ao mais arcaico dos comportamentos. Na Baixa da Cidade, a uns 20 metros da Estação dos Caminhos de Ferro de Moçambique, petizes elevam-se dos becos e anunciam que um dos mais fantásticos patrimónios da história moçambicana terá em breve como companhia um faraónico centro comercial informal.

“Quando abandonei a minha casa estudava na Escola Primária Unidade 10, no bairro de Chamanculo D. Sei dizer o que é A, B, C. Embora com algumas dificuldades, sei também escrever o meu nome. Só não sei ler. Só isso”

Dos quatro aos 16 anos, estão ali expostos ao sol, frio, acidentes de todo o tipo de automóveis. Tem, igualmente, jovens, velhos, “cadeirantes”, grávidas, que na mesma saga disputam espaço. Oportunidades. Há nesta oposição um fator unificador: o dinheiro. Deparámo-nos, também, com crianças que estão no comércio informal porque não têm outras alternativas senão venderem alguma coisa para garantir um prato de comida para si ou para os seus dependentes (irmãos), também menores de idade, porque os pais morreram vítimas de HIV/SIDA.

André Lourenço, de 15 anos de idade, é um exemplo desse grupo de crianças. Revelou à nossa Reportagem que precocemente foi obrigado a trabalhar para no mínimo conseguir um pão para se alimentar. O petiz abandonou a escola porque supostamente não havia ninguém na vida para tomar conta dele, uma vez que perdeu a avó em 2015. “No mesmo ano abandonei a escola e comecei a frequentar o mercado (de Xiquelene), onde carregava algumas mercadorias para obter dinheiro com vista a comprar no mínimo um pão”. Segundo o menor, cuja história não di
fere de tantas outras crianças, conseguia, na altura, entre 20 e 30 meticais por dia. Volvido algum tempo, ele decidiu, graças às poupanças que fazia, iniciar, em julho de 2016, um negócio por contra própria, vendendo maçã nas paragens. “Hoje consigo entre 150 e 300 meticais por dia e se tudo correr bem acredito que possa voltar à escola no próximo ano”, confessou.

Do outro lado, na Avenida Guerra Popular, uma parede, quase, em ruina sustenta quatro vultos, alguns com caixas de pipocas, outros com bacias de maçãs nas mãos, inertes, pálidos numa conversa descontraída. Entre eles está, Arlindo Macarringue, de 17 anos de idade. A sua história começa em 2016, altura em que foi tirado da província de Inhambane por um indivíduo com a promessa de emprego e estudos. Para o seu azar, muito pouco do que foi acordado se cumpriu. Quando ele chegou a Maputo foi obrigado a trabalhar, carregando sacos de arroz e outros produtos à cabeça para a barraca onde a pessoa que lhe prometera emprego cozinhava alimentos para a venda. “Senti-me escravizado porque não tinha tempo para nada, era insultada e maltratada”.

Para se livrar dos maus-tratos, Arlindo decidiu fixar residência no mercado, onde mesmo sem se alimentar devidamente ia à escola de manhã e no período noturno lavava panelas em troca de um prato de comida ou algumas moedas. O esconderijo de uma barraca mal construída era o seu único abrigo e teve que lutar contra as adversidades da vida para sobreviver. Continua nessa batalha até hoje.

“… sou um sofredor que pode aprender como os outros”

“Arrependo-me por ter fugido de casa. Se encontrar pessoas que me possam ajudar a voltar a escola, eu posso continuar com os meus estudos. Por mais que volte a frequentar a primeira classe, isso é normal. Não tenho vergonha. O que quero agora é um lugar para dormir e alguma coisa para comer”. É com este desabafo que começa a narrativa de um petiz desesperado. Encontrámo-lo na Avenida 24 de Julho, em frente a Associação dos Escritores Moçambicanos, e seu nome é Américo Manuel Rungo Guiamba. Conheça a sua história…

Tem 17 anos de idade e muito cedo perdeu os pais vítima de uma doença prolongada, situação que agravou a deficiente condição financeira na família, uma vez que os progenitores eram os únicos que lutavam incansavelmente pela sobrevivência do coletivo familiar. Nasceu no distrito de Zavala, na província de Inhambane. A sua infância, embora aproveitada num curto espaço de tempo, foi feita no bairro de Chamanculo D, na capital do país, onde vivia com os seus pais. Todavia, a drástica história começa aos oito anos de idade quando fugiu de casa. Aliás, um pouco antes disso quando o seu pai ficou doente de paralisia, designada Poliomielite.

“Hoje consigo entre 150 e 300 meticais por dia e se tudo correr bem acredito

da cidade de Maputo. Estranhamente, ainda “neófito” na rua, partilhou espaços com diversos marginais da urbe. “Era gente grande, sem medo, drogados e muito autoritários. Aos 10 anos de idade conheci todos os esconderijos dos traficantes, dos perigosos bandidos, dos ‘molwenes’ da paz (…)”. “

“Arrependo-me por ter fugido de casa. Se encontrar pessoas que me possam ajudar a voltar a escola, eu posso continuar com os meus estudos. Por mais que volte a frequentar a primeira classe, isso é normal. Não tenho vergonha. O que quero agora é um lugar para dormir e alguma coisa para comer”.

Segundo contou, na rua as pessoas não se misturam. Os mais ferozes vivem entre eles e os mais macinhos também. Por exemplo, no Escuro I sito na Avenida 25 de setembro em frente ao Banco de Moçambique – vivem os mais receados marginais. “Aqueles daí, não têm piedade. Só gostam de soruma e de violarem crianças, só”, revelou.

Na mesma cidade, há outro lugar onde pode viver qualquer pessoa. É como se fosse um refúgio. Chama-se ‘Praça’ e localiza-se bem próximo da estátua de Samora Machel, na avenida com o mesmo nome, defronte ao Centro Cultural Franco-Moçambicano. Além desse lugar, existem Chibarrela 1 e 2, Vila Algarve (sita na esquina entre Mártires da Machava e Ahmed Sekou Touré), Guidlica, Fortaleza… Deferentemente de muitos que saem de casa alegando maus tratos, a situação de Américo foi diferente. Enquanto, alguns abandonam as suas famílias só para fumarem, outros desviam-se porque são perseguidos pela própria família por causa dos seus passados: roubos, violações sexuais, tráfico de drogas e de armas, assassinatos e mais.

E, lacrimejando, desabafa: “muitas pessoas quando me veem na rua, às vezes a vasculhar contentores, pensam que sou burro, bandido e/ou marginal. Mas não. Eu sou um sofredor que pode aprender como os outros também. Quando abandonei a minha casa estudava na Escola Primária Unidade 10, no bairro de Chamanculo D. Sei dizer o que é A, B, C. Embora com algumas dificuldades, sei também escrever o meu nome. Só não sei ler. Só isso”. Como qualquer outra criança da sua idade, Américo sonha: “o meu grande sonho quando ainda estudava, era ser Ministro. Mas infelizmente, como vês, esse sonho é inalcançável. Não posso mais sonhar com isso. Aqui na rua não se sonha, vive-se o agora. Por mais que eu queira voltar a estudar, meu irmão, não tenho documentação para me matricular numa escola. Querer quero, mas fazer como?”

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