Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2024
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Moçambique: Deslocados temem não poder voltar às suas casas

by Claudia Guila
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Fonte: DW

Abdul Momade
Novas moradias em construção para os deslocados

Os deslocados de guerra em Moçambique, acolhidos na província de Nampula, estão contentes com as intervenções militares na província. Mas há quem receie que interesses económicos os impeçam de regressar.

As operações da força militar conjunta contra os insurgentes em Cabo Delgado estão a devolver a esperança aos cidadãos que fugiram da província nortenha de Moçambique e estão a viver na cidade de Nampula.

Abdul Momade, de 33 anos, que fugiu de Mocímboa da Praia, no ano passado, elogia o trabalho das tropas estrangeiras e nacionais que anunciaram ter recuperado a vila

“Ainda bem que estão a entrar essas tropas [estrangeiras], isso é positivo. As tropas devem também envidar esforços para dominar os malfeitores em Cabo Delgado”, disse à DW África.

Momade é um dos mais de 60 mil deslocados de Cabo Delgado a viver na província de Nampula. Mora, desde outubro de 2020, no bairro de Namicopo, na cidade de Nampula, onde divide uma casa com 17 pessoas. A vontade que tem de regressar à sua terra é muito grande.

“Quero encorajar o Governo pelo esforço e as tropas que estão a entrar, de modo que acabe com esta situação para que possamos voltar às nossas casas”, diz.

Medo do futuro

Abu Abacar, outro cidadão deslocado a viver em Nampula, também enaltece os esforços das Forças de Defesa e Segura (FDS) e das tropas estrangeiras no combate ao terrorismo. Mas tem medo em relação ao futuro. O que mais o preocupa é que, quando voltar, ele e outras pessoas possam não reentrar nas zonas onde moravam.

“Estamos a apelar [ao Governo] para, quando o terrorismo acabar, nos digam, para retornarmos às nossas casas.”

Abdul Momade está confiante que o Governo vai reassentar os delocados nas suas terras de origem, assim que forem concluídas as operações contra os terroristas.

“E nós vamos para lá na confiança de que nos vão dar”, afirma.

Muaziza Yahaya, deslocada de Mocímboa da Praia, abrigada também em Nampula, não partilha deste otimismo.

“Nós temos medo de perder as nossa terras. Hoje podem estar a falar que estão a enxotar os malfeitores, mas amanhã nós perdemos as nossas terras. Nós sabemos que as nossas terras possuem muitas riquezas. Então queremos que o Governo nos alerte [para o regresso] depois do combate acabar”, diz.

População desconfiada

JóJó Ernesto, a analista e coordenador geral da Associação Mentes Resilientes, uma organização da sociedade civil moçambicana, entende as preocupações levantadas pela população.

“Estamos a ver agora uma correria em reassentar as pessoas [deslocadas], como se essas pessoas não fossem voltar às suas zonas de origem. É como quem diz que se vão estabelecer aqui definitivamente. Então, é uma preocupação, porque do lado do Governo ainda não veio nem uma voz dizer que queremos escorraçar os terroristas para devolver a região aos donos, que é a população local”, disse à DW África.

“Essa preocupação é legítima. As pessoas devem preocupar-se. Todos os moçambicanos deviam juntar-se para exigir que se criem já condições para que as pessoas voltem às suas zonas de origem. Porque é lá que estão habituadas a ter uma vida normal”, acrescenta Ernesto.

Apelo à transparência

Segundo o analista, com a entrada de tropas estrangeiras há na população alguma desconfiança em relação a possíveis contrapartidas. Há quem pense que a ajuda estrangeira pode não ser fruto apenas da “boa vontade”, havendo  interesses por trás relacionados com a exploração dos recursos naturais.

JóJó Ernesto apela, por isso, ao Governo, que seja transparente, de modo a evitar especulações e assegurar às comunidades de Cabo Delgado que também vão beneficiar das riquezas naturais.

“O nosso Governo não aprende com erros, oculta tudo. Nós ainda não sabemos os contornos, em termos de condições, da presença das forças estrangeiras. Na política há jogos de interesse. Por isso, o Governo devia falar de forma aberta sobre o que está por trás dessas ajudas. É verdade que a nós, neste momento, nos interessa a paz. Depois havemos de fazer as contas, mas só espero que essas contas não sejam caras para o cidadão moçambicano”, conclui.

A DW África tentou, sem sucesso, obter um comentário por parte da administração.

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